As fontes


 

 

Fruto de investigação levada a cabo pela docente e diretora do doutoramento PACI, Carmen Soares, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, para a exposição BiblioAlimentaria em 2016, foi estudado o primeiro livro impresso em Portugal sobre culinária nacional: Cosinha Portugueza (Coimbra: Imprensa Académica, 1902, 2ª edição).

 

 

Essa investigação histórica demonstrou que, desde as suas origens no panorama editorial português, a “culinária honorífica” (aquela que presta homenagem a pessoas ou grupos) marcou presença na construção da narrativa literária sobre o património alimentar nacional. Seguramente por a obra ser publicada em Coimbra, Cidade dos Estudantes, no seu conjunto de receitas aparecem cinco com ligação direta ao universo académico, dentre as quais os Biscoitos Académicos.

 

Por outro lado, a memória escrita do doce de pêssego está guardada nos manuscritos 120, 336 e 555 da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. O texto jocoso da autoria do Padre Silvestre Aranha do Real Colégio das Artes da Companhia de Jesus, em que se refere a fama das conservas doces de pêssegos na cidade de Coimbra, intitula-se “Suplício dos Doces”.

 

O “Suplício os Doces” era destinado ao entretenimento moralizante e pedagógico dos estudantes, tendo sido apresentado nas aulas dos dias 1 e 15 de março de 1727. Trata-se de uma peça na qual os doces são levados a julgamento por delitos de uma natureza ao mesmo tempo económica (pelas “pancadas’’ dadas na “bolsa” dos estudantes) e sanitária (pelos males provocados à saúde dos estudantes).

Na obra, cada um dos réus apresenta-se diante de juízes que pertencem à Academia, e quando julgados culpados, recebem uma pena diretamente ligada às suas características de preparação ou de apresentação. Antes dos pêssegos, apresentaram-se o “pam de ló” (culpado), o “assucar rozado” (inocente), o caramelo (culpado), o alfenim (inocente), os “confeytos” (inocentes), os talos de alface (culpados), as amêndoas (inocentes) e a “marmelada” (inocente). Diante da absolvição da sua antecessora, “prometiasse semelhante felicidade aos celebrados pessegos de Coimbra. Mas sucedeo-lhe tanto pelo contrario que lhe correrão bem a caxa”. Assim, a condenação dos pêssegos foi a “caixa”, numa clara alusão ao recipiente de madeira em que eram colocados depois de feitos de conserva.

Portanto, já em 1727 as conservas de pêssegos de Coimbra eram celebradas pelas suas qualidade e singularidade.